A vila de São Paulo de Piratininga foi fundada em 1554 por missionários jesuítas, empenhados em converter índios à sua fé, na borda do Planalto Central do Brasil, ao lado do rio Tietê, que corre para o interior. A vila se tornou a ponta de entrada da fronteira portuguesa no interior continental, à medida que os bandeirantes avançavam em busca de ouro e de escravos nativos. Nos últimos cinco séculos, a vila de cabanas de sapé, sujeita a enchentes, tornou-se uma cidade, que se expandiu, passando por veloz mudança, até virar metrópole. São Paulo permaneceu um lugar primitivo até o boom do café, nas últimas décadas do século XIX, quando veio a ser o principal empório e terminal ferroviário para as plantações em expansão no interior. E logo se tornaria uma força motriz industrial do século XX. A população da Grande São Paulo multiplicou a partir de seus 31.000 habitantes, em 1870, para os 18 milhões de hoje, crescendo a 5% ao ano, a mais alta taxa que registra a experiência humana em matéria de crescimento urbano ininterrupto, ao longo do tempo. Essa expansão foi duas vezes mais rápida do que a de Berlim, que liderou a urbanização acelerada no século XIX, ao expandir-se à taxa de 2,6% ao ano, de 170.000 habitantes, em 1800, para quatro milhões, em 1925.
A São Paulo de hoje é um oceano turbulento de desperdício e contradição, com sua grande vitalidade a enfrentar, como nunca antes, o desafio de problemas de escala e de desorganização política. Segundo estimativas das Nações Unidas, São Paulo empata virtualmente com a Cidade do México e Bombaim no segundo lugar entre as cidades gigantes do mundo, ainda longe de Tóquio com seus 26 milhões de habitantes. Como fruto da urbanização acelerada do século XX, apenas oito das trinta maiores cidades encontram-se em países ricos, em comparação com dois terços em 1950, uma mudança marcante de progresso humano. "A urbanização crescente é outro indicador de riqueza crescente, sob a forma de abastecimento alimentar que beneficia as grandes populações não-agrícolas", observou J. M. Roberts em The Twentieth Century (1999). "Muitos morreram de fome desde 1901, porém os sobreviventes foram em maior número. Falar destes como os que desfrutam a riqueza pode parecer paradoxal ao visitante que sente choque ao ver os cortiços do Cairo ou Calcutá. Não obstante, a humanidade tem agora à sua disposição maior abundância de recursos que nunca teve antes". A grande questão reside em como tais recursos devem ser usados.
"A cidade se tornará cada vez mais o banco de teste de adequação das instituições políticas", dizem as Nações Unidas no novo relatório Istanbul: The Urban Millennium. "Vergando sob o peso de todos os problemas do crescimento, as cidades tornam-se cada vez mais objeto de crises dramáticas, em particular nos países em desenvolvimento. O desemprego, a degradação ambiental, a falta de serviços urbanos, a deterioração da infra-estrutura e o bloqueio de acesso a terra, a recursos financeiros e a habitações decentes são as principais áreas de preocupação".
A desorganização política da Grande São Paulo toma corpo nos 39 municípios que se espalham sobre cerca de oito mil quilômetros quadrados. No centro da metrópole está o gigante Município de São Paulo, onde se aglomeram dez milhões de habitantes. Ela é a capital do Estado de São Paulo, que abrange uma das mais ricas regiões agrícolas do mundo. Este ensaio analisa as debilidades da estrutura política de São Paulo e sugere algumas vias de reforma que tornariam os seus problemas mais tratáveis.
São Paulo liderou a tendência mundial na urbanização no século XX, com choques entre padrões novos de riqueza e de justiça social. Ela se transformou numa metrópole de núcleos múltiplos, à semelhança de Los Angeles, Houston e Atlanta, menos dependente de seu antigo centro, com aparecimento de uma nova e espetacular geração de torres de escritórios, edifícios de apartamentos de luxo e shopping-centers, à medida que as empresas mais prósperas migravam de velhas fábricas e velhos edifícios, com suas paredes enegrecidas por décadas de fuligem. A metrópole segue expandindo. A primeira fase do Anel Viário de 170 quilômetros é prevista para ser concluída em 2002, para facilitar o tráfego de caminhões com o interior do país sem passar por áreas mais povoadas da metrópole. O Anel Viário conduz a especulação dos terrenos com os projetos de construção próximo às entradas de acesso, incluindo aí hospitais, hotéis, centros de distribuição de carga, depósitos, fábricas e um complexo para fornecedores às lanchonetes do McDonalds.
A frenética pavimentação de novas ruas e a construção de novos túneis e viadutos não conseguem acompanhar a proliferação de veículos a motor, que eram 55 mil em 1950, passando a um milhão em 1980 para chegar aos cinco milhões da atualidade, sem incluir as 375 mil motocicletas, usadas principalmente por mensageiros (motoboys) que correm perigosamente entre filas compactas de automóveis. A infra-estrutura subterrânea está pouco mapeada. É freqüente que, em suas escavações, turmas de trabalhadores causem inesperadas perfurações na tubulação de gás, esgoto, água encanada e fiação de energia elétrica, de que resultam vazamento de gases, explosões e inundações. Para os ricos, São Paulo possui a segunda frota mundial de helicópteros (450 unidades, só menor que Nova Iorque), que cresceu 70% nos últimos três anos. Homens ricos, suas esposas e filhos se refugiam dos perigos e inconveniências da metrópole numa infra-estrutura privada de carros blindados, guarda-costas e condomínios fechados.
Pelo fato de nunca ter sofrido danos de guerra, ao contrário da maioria das cidades européias, São Paulo pode sustentar o seu precário estilo de vida numa escala cada vez maior. As vidas se prolongaram. Como indicador de bem estar humano, a mortalidade infantil caiu de 124 por mil nascidos vivos, em 1940, para 16 em 1999. A Prefeitura Municipal de São Paulo mantém 244 postos de saúde e hospitais que dão três milhões de consultas por ano, afora os serviços do sistema médico paralelo, operado pelo Governo do Estado. Desde os últimos anos do decênio de 70, a parcela da população beneficiada pelo serviço de abastecimento de água passou de 50% para 99%, enquanto a rede de esgotos passou a atingir 88% das habitações, em comparação com apenas 39% em 1978. O valor dos salários aumentou desde 1994, quando o Plano Real deu um basta à inflação crônica. A Grande São Paulo é o principal mercado para a produção de carne do Brasil, derivada do maior rebanho bovino do mundo. O consumo per capita de carne bovina e de frango é mais alto do que a média dos países ricos. Embora o Brasil tenha um injusto padrão de distribuição de renda, com os 10% mais ricos da população absorvendo 47% da renda monetária, seria impossível que os dez por cento mais ricos comessem carne na proporção de sua participação na renda, o que permite acreditar que os pobres também comem bastante carne. Em São Paulo, o número de residências com máquinas de lavar aumentou de 46% em 1992 para 60% em 1999. Quase todas as famílias agora têm refrigeradores e televisão. De 1972 a 2000, na periferia da metrópole, levaram a efeito 825 subdivisões clandestinas de terrenos, formando 105.102 lotes para casas ilegais, destinadas a grupos de três a cinco famílias e construídas na margem de reservatórios de água e em outras terras protegidas por leis de defesa do meio ambiente. Contudo, muitas das áreas invadidas, para construir casas precárias, tornaram-se comunidades amorfas, em intensa expansão e conectadas ao centro da cidade por artérias de tráfego engarrafado e sortidos de supermercados, escolas, terminais rodoviários e hospitais, assim como por milhares de pequenos negócios — padarias, cabeleireiros, farmácias, postos de gasolina, bares e lojas de material de construção. Sobretudo, São Paulo é um oceano de casas pequenas e ruas estreitas, evocando o que Samuel Johnson dizia de Londres em 1763: "Sir, se quiserdes ter uma noção exata da magnitude desta cidade, não vos deveis satisfazer com a visão das grandes ruas e praças, mas chegar perto das inumeráveis vielas curtas e ajuntamentos de casas pobres. Não será na evolução de vistosos edifícios, mas na multiplicidade de espremidas habitações humanas que representa a maravilhosa imensidão de Londres".
Embora a qualidade dos serviços públicos seja pobre em meio à desordem, a situação atual mostra um grande salto para frente em relação ao que existia há dez ou quinze anos. Nas últimas décadas, São Paulo conseguiu atingir excelência em finanças, comunicações de massa, engenharia, medicina, indústria, "marketing" e moda. Mas tal excelência está sendo minada por desmoralizantes episódios de corrupção, revoltas em prisões, falência da educação pública, roubos de cargas transportadas em caminhões, assaltos à mão-armada e homicídios nos sinais de trânsito. Enquanto o povo exige Justiça, têm crescido os problemas de escala e as pressões sobre as frágeis instituições políticas.