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PUBLICAÇÕES - BRAUDEL PAPERS - EDIÇÃO Nº 15 |
Clientelismo na cultura
política brasileira
Toma lá dá cá
Richard Graham
| Oclientelismo
constituía a trama de ligação da política do Brasil
no século XIX, sustentando praticamente todos os atos
políticos. De 1840 a 1889, durante o reinado do
imperador Pedro II, a ascensão e queda de famílias,
clãs e partidos dependeu da distribuição habilidosa de
cargos públicos, proteção e favorecimento em troca de
lealdade política e pessoal. O medo e o favor invocados
pelo clientelismo podiam significar a diferença entre a
humilhação e o triunfo em longínquas comunidades
dispersas nessa terra rude e em expansão que veio a se
tornar a nação continental que conhecemos hoje. O
clientelismo, como forma de cultura política, continua a
talhar ainda hoje as decisões no Congresso, no
judiciário e nas atividades cotidianas de todos os
níveis da administração pública. |
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| As raízes dessa cultura política são muito
antigas. Pero Vaz de Caminha termina a carta em que
relata ao rei de Portugal a descoberta do Brasil com um
pedido de perdão para seu genro: Pois que, Senhor,
é certo que, assim, neste cargo que levo, como em outra
qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza
há de ser, por mim, muito bem servida. A Ela peço que,
para me fazer singular mercê, mande vir da Ilha de São
Tomé, Jorge de Osório, meu genro, o que dEla
receberei em muita mercê. Beijo as mãos de Vossa
Alteza. O clientelismo significava preencher cargos
do governo e proteger clientes humildes, até mesmo
agricultores sem terra. No Brasil do século XIX, esses
dois tipos de favor entrelaçavam-se por meio das
eleições, que testavam e demonstravam a liderança do
chefe local. Pelo sistema de eleições indiretas, os
votantes elegiam os notáveis do lugar para formar
Colégios Eleitorais que, por sua vez, escolhiam os
deputados. A família e o lar formavam o alicerce de uma
estrutura de poder socialmente articulada. O potentado
local e seus seguidores trabalhavam para ampliar essa
rede de dependência. Em uma sociedade essencialmente
rural, um latifundiário esperava lealdade de seus
trabalhadores livres, dos pequenos agricultores da
vizinhança e dos comerciantes da vila e de muitos outros
dependentes, demonstrada mediante várias formas de
apoio, especialmente nas urnas. Participava das
eleições uma parcela muito maior da população do que
estudiosos do passado brasileiro costumavam admitir,
ampliando assim a legitimidade de atos eleitorais que
demonstravam publicamente a superioridade
natural de uns sobre outros. Quem quisesse
contestar uma liderança local tinha de montar sua
própria clientela. Exibi-la em toda a sua extensão
podia facilmente significar o uso da força para derrubar
o chefe no poder. Dessa forma, eleições e violência
andavam juntas. Embora, em nível nacional, o resultado
delas pudesse quase sempre ser previsto, as lutas pelo
poder local tinham importância crucial para certos
homens. O poder de obter cargos oficiais para seus partidários ajudava a expandir o círculo do potentado e levava-o a solicitar essas nomeações às autoridades provinciais, aos membros do Parlamento nacional, aos ministros e até ao presidente do Conselho. Para provar que merecia esses favores, o chefe local tinha de vencer eleições. Assim, de uma forma circular e muito real, ele era líder porque vencia eleições e vencia eleições porque era líder. O chefe via-se enredado em um sistema que o tornava cliente de alguém que dependia de outros, numa série de elos que alcançava a corte imperial. Por seu lado, os gabinetes exerciam sua autoridade não contra os líderes locais, mas por meio deles. Os senhores da terra, por sua vez, tentavam não se opor ao governo, mas participar dele, um ponto essencial para entender a política do Brasil no século XIX que enfraquece muito o significado de qualquer suposta oposição entre poder privado e público. Esse tipo de cooperação ad hoc explica também uma boa parte da atividade política do Brasil de hoje. A principal preocupação dos políticos seria defender os interesses dos donos da terra e comerciantes, ou estavam voltados para o fortalecimento do poder central? Minha pesquisa diz que não faziam nem uma coisa nem outra. A correspondência deles mostra que devotavam a maior parte de sua energia para a construção de redes de clientelismo, alargando sua clientela ou procurando um protetor poderoso para sua sorte política. Os políticos do século XIX estavam principalmente (mas não totalmente) preocupados com o favor, distribuindo-o ou buscando-o, ou freqüentemente ambas as coisas. Legitimavam assim a estrutura social existente, dominada pelos donos da terra. A política funcionava com esse fim, não só ou principalmente, mediante determinadas diretrizes governamentais, mas por meio de um estilo totalmente envolvente de vida e de prática. Ao mesmo tempo em que servia aos interesses da elite, a lógica do clientelismo proporcionava um padrão para medir e controlar o comportamento da classe dominante. Seus membros, portanto, somente violavam o código com cautela. Porque eram claros, os padrões de comportamento político eram aceitos por mais gente do que poderíamos esperar, pois estavam enraízados em um sistema social antigo e em relações familiares e pessoais construídas ao longo do tempo. Não considero esse tipo de clientelismo um estágio a ser superado pelo inevitável triunfo de uma burocracia racional universalista e impessoal, nem se trata de uma condição patológica. O clientelismo funcionava para alguns, senão para outros, e preservava uma estrutura que somente uma revolução poderia destruir. |
| A família era uma fonte importante de capital político. As fronteiras dela iam bem além do núcleo familiar. A proteção em troca de lealdade que os laços familiares asseguravam abrangia, antes de mais nada, uma ampla gama de parentes consanguíneos e, depois, um número igualmente grande de conexões matrimoniais. Embora um pouco mais tênues, os laços de parentesco ritual também eram importantes. No Brasil, como em outras culturas ibéricas, ser padrinho, afilhado ou compadre trazia consigo importantes obrigações religiosas e compromissos de propriedade e, portanto, influência e até mesmo autoridade. |
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| Todos essas conexões familiares implicavam em
obrigações de ajuda mútua nas eleições, ou de
obtenção de cargos no governo, de tal forma que, por
extensão, os brasileiros chamavam os protegidos de
afilhados e os protetores de
padrinhos. A palavra família incluía muitas vezes pessoas sem relação de parentesco. No caso de uma fazenda, a família abrangia escravos, trabalhadores contratados, inquilinos, compadres, afilhados, parentes próximos e longínquos, em suma, todos os que viviam na ou da propriedade. O dono da casa expandia assim o círculo daqueles que, como dependentes, reconheciam sua autoridade. Com freqüência, os documentos descrevem uma pessoa livre como agregado à minha família, ou como morador nas minhas terras, resumido para agregado e morador. A partir de família, parentes, agregados e outros dependentes, um senhor rural montava sua clientela. Os clientes dependiam do líder e ofereciam-lhe em troca lealdade. Não importava se o caso específico caísse na esfera política ou econômica. Um patrão tanto oferecia emprego como protegia seus dependentes da autoridade de outros. A medida de um homem era o tamanho de sua clientela. A posse de vastas terras e, quando apropriado, de escravos demonstrava sucesso e ajudava muito no trabalho de aumentar o número de partidários. Mas o recurso crucial era a lealdade dos outros. Com o apoio desse grande séquito, um senhor rural podia exercer influência suficiente sobre juízes e policiais (ou garantir esses cargos para si mesmo) a fim de oferecer proteção e conceder favores, aumentando assim a quantidade de amigos, assegurando-se da lealdade de sua crescente clientela por meio da gratidão, senão pela força. Todos buscavam um patrão que lhes desse proteção e todos batalhavam para ter seu próprio séquito. Como dizia o ditado dos pobres, tem patrão, tem tudo. O objetivo social da ação política, das eleições e da nomeação para um cargo derivava principalmente de dois dos princípios norteadores da organização social brasileira. Primeiro, a prática e a pregação constante ensinavam que todas as relações sociais envolviam troca de proteção por lealdade, de benefícios por obediência. Assim, os recalcitrantes eram punidos. Segundo, as instituições enfatizavam a hierarquia social, ensinando que cada indivíduo tinha o seu lugar, ainda que a distinção mais importante fosse entre proprietários e pobres. A ameaça de punição e a promessa de benevolência marcavam a vida de esposas e filhos, escravos, agregados, pequenos sitiantes, donos de venda e outros seguidores do patrão, prendendo-os todos numa teia poderosa de obrigações devidas e dádivas esperadas. Essas realidades tingiam também todas as outras relações de poder, em particular as declaradamente políticas. Todos estavam envolvidos em um processo constante de troca mútua, mas desigual. Assim, a elite mantinha a ordem social por meio de um entendimento tácito generalizado de que a obediência dava direito à proteção. As medidas de controle social eram muito necessárias devido a obstáculos à sua imposição no país, em particular a mobilidade geográfica dos homens livres sem terra. A proporção deles no total de negros e mulatos alcançou 74% em 1872, respondendo por 44% de toda a população. A libertação de escravos dependia de que dessem sinais de aceitar os valores dos que os emancipavam. Para tratar com os pobres livres, a elite também confiava na ameaça de punição. O alistamento militar servia muito bem a essa finalidade. O recrutamento forçado parecia uma resposta adequada ao crimes considerados menores. Como relatou um chefe de polícia do Rio de Janeiro, referindo-se a um rapaz: Convencido de que ele roubara duas peças de seda de uma francesa na rua dos Ourives [...] decidi recrutá-lo porque não havia prova suficiente de seu crime para que eu pudesse processá-lo. Proteger uma pessoa pobre da ameaça de ser recrutado aparece com tanta freqüência nos documentos da época que podemos supor que o verdadeiro objetivo do recrutamento era forçar todos a buscar uma identificação com uma família que pudesse oferecer essa ajuda. Os pobres buscavam desesperadamente a ajuda de um chefão para evitar sua remoção da Guarda Nacional para o exército, ou o recrutamento direto. Líderes rivais demonstravam sua influência protegendo os seus. Isso também contribuía para aumentar a clientela. O clientelismo significa distribuição de privilégios. Os homens de propriedade dominavam o Estado brasileiro no século XIX. Evitar que os conflitos sociais se expressasem em desordem, destruindo as vantagens da propriedade, foi o que orientou a construção do sistema político no Brasil, bem como no resto do mundo. Como escreveu Adam Smith em A riqueza das nações (1776): O governo civil, na medida em que é instituído para a segurança da propriedade, é na realidade instituído para a defesa dos ricos contra os pobres, daqueles que possuem alguma propriedade contra os que não têm nenhuma. Noventa anos depois da Revolução Francesa, um orador no Parlamento brasileiro, debatendo a reforma eleitoral de 1881, culpava-a por introduzir o princípio da igualdade, o maior perigo que se pode encontrar na sociedade. Os proprietários no início do século XIX tomavam posições ambivalentes em relação ao governo central. Se ele oferecia um instrumento eficaz para controlar os pobres, também podia ameaçar sua autoridade local. Assim, os homens abastados tentavam garantir para si ou seus amigos posições de poder em todos os níveis de governo. Apesar de hesitações e inversões, eles decidiram claramente jogar sua sorte junto com a do governo na década de 1840. Foi uma escolha sábia, pois as várias instituições de governo que criaram revelaram-se um poderoso baluarte contra a desordem. As nomeações para cargos na estrutura governamental permitiram que os abastados fortalecessem sua posição de classe e expandissem suas clientelas individuais. Apropriaram-se do governo central e depois utilizaram o clientelismo para manter seu domínio local. As instituições políticas brasileiras, tal como implantadas firmemente em 1850, surgiram da necessidade percebida pelos homens de posses de um sistema no qual pudessem resolver suas diferenças sem solapar a ordem. O sistema político centralizado e estável não lhes foi imposto pela elite política, mas construído por eles mesmos. Usando o aparato que criaram, os donos do poder no Rio de Janeiro nomeavam legalmente uma grande variedade de autoridades em todo o Brasil. E foi mediante o uso habilidoso da concessão de favores que a capital se tornou realmente o centro político do país. O imperador nomeava o Conselho de Estado, órgão vitalício composto por doze políticos experientes. Para escolhê-los, baseava-se tradicionalmente em indicações do primeiro-ministro. Por seu turno, Pedro II pedia orientação ao Conselho no uso de seu poder moderador, em especial seu direito de nomear e destituir o gabinete. O primeiro-ministro (presidente do Conselho) escolhia os membros do gabinete tentando equilibrar ambições políticas concorrentes, forças regionais e habilidades e contatos parlamentares. E, de suma importância, o gabinete nomeava diretamente todas as autoridades administrativas, inclusive as policiais e todos os oficiais da Guarda Nacional; designava também, sujeito a algumas restrições, todos os juízes e bispos e autorizava a maioria das promoções militares. Sua nomeação dos presidentes provinciais era decisiva, pois a lei os chamava com razão de primeira autoridade das províncias. Encarregados de fazer cumprir a lei e defender a Constituição, os presidentes intervinham em muitos assuntos. Sua função principal, no entanto, era produzir resultados eleitorais favoráveis ao gabinete. Eles usavam o clientelismo como principal instrumento para alcançar esse objetivo. Os principais agentes do presidente de província para fazer cumprir a lei e obter informações políticas eram os chefes de polícia um por província e seus delegados em cada município e subdelegados em cada paróquia. Com exceção do chefe de polícia, esses funcionários não recebiam salários, derivando sua renda pessoal de atividades privadas. A maioria vivia na localidade e os ricos tinham preferência para o cargo. No campo, a maioria possuía terras e ambicionava esses postos oficiais para ter mais autoridade e conceder favores, isenções e proteção aos seus clientes. Ao não confiar a burocratas profissionais a execução de suas instruções, o gabinete mantinha linhas abertas de comunicação com os chefes locais e reconhecia o poder e a importância deles que, por sua vez, confiavam nessas nomeações para expandir seus séquitos. O maior poder local de delegados e subdelegados vinha de seu direito de recrutar à força. Essas autoridades, geralmente proprietários rurais, usavam o alistamento para controlar a população. Diferente de delegados, subdelegados e inspetores de quarteirão que, como civis, tinha autoridade puramente legal sobre os cidadãos, outros, usando armas e organizados em regimentos, aplicavam a força aos recalcitrantes. Esse laço íntimo entre centralização governamental e controle social ficava, em última análise, com a polícia provincial, a Guarda Nacional e o exército. A Igreja também dependia dos favores do governo, unindo-se a outras instituições para manter a ordem. Havia doze bispados. Seguindo o precendente colonial, o governo propunha nomes para essas sés ao Vaticano e Roma os consagrava. Os presidentes de província indicavam também (aos bispos) vigários para as paróquias; assim, o clero dependia, ao menos em parte, do favor político para promoções ou transferências. O controle central usava também o sistema judiciário. Em contraste com os delegados e comandantes da Guarda Nacional e mais parecidos ao clero e aos oficiais do exército, os juízes buscavam avançar dentro de uma hierarquia profissional. Embora pudessem ter terras, escravos ou negócios e querer designação para os lugares onde sua família tinha força, recebiam um salário do governo e sofriam freqüentes transferências. O judiciário, reconheceu um escritor, não poderia ser um poder independente enquanto os magistrados dependerem de um governo que os nomeia, transfere e aposenta sempre que quer, para satisfazer os presidentes. Os juízes distritais e municipais eram advogados formados por uma das duas faculdades de Direito, de São Paulo e Recife. Essas escolas forneciam todos os quadros políticos do país. A admissão nelas dependia tanto de exames quanto de conhecer as pessoas certas. O mesmo acontecia para passar nas matérias. Em 1860, um pai preocupado explicava para um fazendeiro da provícia do Rio de Janeiro: Meu filho em São Paulo não recebeu as cartas que lhe pedi em favor dele, bem como algumas que mandei a ele. [...] Ele escreveu-me para dizer que por falta delas foi reprovado em Retórica. Aquele que detinha autoridade possuia-na literalmente e podia com legitimidade cedê-la, ou parte dela, para outrem. A capacidade de distribuir postos tornava-o automaticamente um chefe e facilitava muito a construção de uma clientela. Dessa forma, os cargos públicos transformaram-se em um recurso a ser utilizado como qualquer outro. Podiam ser possuídos, concedidos, ou retirados. Quem recebia um cargo, o fazia como se fosse um presente. Quando alguém assumia um posto, dizia-se que havia tomado posse, expressão usada ainda hoje, e pagava uma estampilha, como se faria ao adquirir uma propriedade. Os bacharéis, fossem juízes ou membros do Parlamento, não atuavam apenas como agentes para impor a autoridade pública sobre o domínio privado, mas também amarravam os governos nacional e locais com laços de amizade, de família e de lealdade pessoal. Em suma, o clientelismo forjava os laços essenciais da estrutura de poder. Os chefes locais precisavam da designação para cargos de autoridade para ampliar sua clientela e avançar dentro da hierarquia de poder e status. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro, no Rio de Janeiro, contava com a influência desses homens, mesmo nas vilas mais remotas, para sustentar o governo central. O gabinete sopesava cuidadosamente as nomeações, promoções, transferências e demissões, sempre atento aos interesses dos senhores da terra. Dar emprego para clientes, amigos e parentes formava a essência da política nacional. Em tudo isso, o Parlamento desempenhava um papel-chave, pois os gabinetes tinham de obter seu apoio, mesmo se designados pelo imperador. Assim, os gabinetes tinham de ganhar eleições. Durante o meio século do reinado de Pedro II, o Brasil parecia uma plena democracia representativa em funcionamento. Os observadores estrangeiros elogiavam um sistema político que tinha a aparência dos regimes burgueses da Europa. Mas era precisamente nas eleições que a elite brasileira exibia com mais clareza as contradições que permeavam sua posição em relação à liberdade e à ordem. A liberdade era um tema constante nos discursos políticos. De todas as liberdades, as eleições livres eram consideradas a mais vital. Contudo, as eleições contestadas deflagravam uma desordem que era percebida como uma ameaça de dissolução da sociedade. O presidente do Ceará, em instruções eleitorais enviadas a delegados e subdelegados, frisava que em nenhuma circunstância deveriam utilizar força como intrumento de coerção e terror, exceto contra os provocadores de perturbações e de cenas desagradáveis. A notável exceção permitia a coerção e o terror contra os que perturbavam o decoro. Uma mesa eleitoral local capturou o tom adequado ao relatar que a eleição fora calma, moderada e justa e a força fora usada apenas para manter a ordem pública, uma vez que muitos dos que agora protestavam contra a conduta da mesa ameaçavam vencer por meio da desordem. Se as autoridades representantes do partido no poder acreditavam que as eleições podiam ser ao mesmo tempo tranqüilas e justas, então, logicamente, a desordem só poderia vir daqueles que se opunham ao partido dominante, o lado interessado na desordem. Descobrir uma maneira de satisfazer essas exigências conflitantes demonstra o gênio dos atores políticos brasileiros. Eles trabalhavam em dois sentidos. Primeiro, a legalidade das eleições podia ser reconciliada com a necessidade de vencê-las se os encarregados de cada etapa formal do processo eleitoral devessem fidelidade ao gabinete e sempre se inclinassem a favor do interesse do partido dominante. Essa dependência sustentava a legalidade de uma eleição. Os contestadores encontravam obstáculos imensos na tentativa de desacreditar os resultados. Em segundo lugar, o uso do favor também podia ser utilizado para desviar a oposição potencial, dando aos seus candidatos a líder posições de autoridade dentro do governo. Assim fazendo, era possível realizar eleições com toda a legalidade, mandando ao mesmo tempo deputados para o Rio de Janeiro que apoiariam o gabinete. O clientelismo tornava possível reconciliar a vitória com a ordem e uma aparente honestidade. |
O grande esforço de exercer o clientelismo começava, num certo sentido, com o próprio imperador. Ele situava-se no topo da grande pirâmide, como a chamou um jurista, ao designar o gabinete. Este, por sua vez, nomeava ou controlava a nomeação de um grande número de pessoas que legalmente desempenhavam um papel público nas eleições. Antes mesmo da dissolução do Parlamento, o gabinete esforçava-se nomeando presidentes e chefes de polícia de confiança, transferindo juízes de direito, [...] dispensando alguns funcionários [públicos] e recontratando outros, [...] a fim de tomar todas as providências necessárias para obter um bom resultado na eleição. |