Braudel Papers 27:
Sinfonia da São Paulo

Norman Gall

Durante os últimos três anos a OSESP - Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, transformou-se num conjunto de padrão internacional numa das mais surpreendentes recuperações nos anais recentes da música clássica. As mudanças foram repentinas e dramáticas. As precárias condições de ensaio e de apresentação, improvisadas em cinemas em decadência, escolas e auditórios, foram trocadas pelo esplendor da nova Sala São Paulo, uma estação ferroviária remodelada com um luxuoso décor de mármore e acústica excelente, situado no deteriorado centro da cidade. Os salários dos músicos foram triplicados, dando-lhes mais segurança e um trabalho de tempo integral. O público começou a lotar a Sala São Paulo para os concertos regulares das quintas feiras à noite e vesperais aos sábados, atraído pela música de alta qualidade e o módico preço dos ingressos. A Orquestra está executando este ano uma temporada de 39 programas de concertos, planejados com longa antecedência, misturando a melhor música brasileira com o repertório tradicional e contemporâneo, freqüentemente com uma programação imaginativa. O Centro de Documentação Musical criado, restaura e publica obras brasileiras importantes mas geralmente esquecidas. A nova Academia de Música da OSESP ocupará um edifício antigo adjacente, também restaurado, que foi usado como sede do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), a temida polícia política. Lá os músicos das primeiras estantes de cada instrumento da Orquestra treinarão uma geração nova de músicos para os futuros quadros da Sinfônica. A Orquestra acaba de assinar um contrato com a Columbia Artists Management para turnês nos Estados Unidos em 2001, na Europa em 2002 e na Ásia em 2003. Numa época em que as vendas de música clássica gravada no mundo inteiro estão caindo, com orquestras famosas, como as de Boston, Filadélfia e Cleveland, perdendo seus contratos de gravação, a Sinfônica de São Paulo assinou contratos com a Sony e com a BIS, o prestigioso selo sueco, para gravar música brasileira.

O renascimento da Sinfônica surge como um raio de luz numa vasta metrópole mal gerida de 17 milhões de habitantes, de vitalidade colossal sobrecarregada com imensos problemas de escala, com 11.500 assassinatos, 10.000 assaltos à mão armada nos ônibus urbanos e diversos escândalos políticos ao longo de 1999. No livro comemorativo da abertura da Sala São Paulo em julho 1999, o diretor musical da Orquestra, John Neschling, creditou ao governador do Estado de São Paulo, Mário Covas, "uma generosidade raramente encontrada na vida política" por seu apoio financeiro ao renascimento da Sinfônica. No mesmo livro, Covas escreveu que o governo de São Paulo está dando o mais importante e definitivo passo para a reabilitação de espaços urbanos através da cultura". Mas ainda há pela frente uma luta para criar a estabilidade política e a densidade institucional requerida para conseguir os objetivos da Orquestra a longo prazo.

A temporada de concertos 2000 foi aberta em março com uma apresentação da Missa Solemnis de Beethoven, uma poderosa expansão da missa católica barroca, carregada de sofrimento e serenidade, e uma das obras mais difíceis de ser executada. Em Doutor Fausto, Thomas Mann escreveu que ao compor a Missa Solemnis Beethoven estava engajado "em uma luta de vida e morte com todos os espíritos avessos ao contraponto" para criar "as majestosas fugas do Glória e do Credo" numa evidência de que finalmente "no combate com esse anjo o grande lutador saía vencedor, posto que o terminasse com a coxa deslocada". Esta difícil obra-prima foi regida com grande habilidade e maturidade por Roberto Minczuk, o regente assistente da Sinfônica, de 33 anos, filho de um pai emigrado da Ucrânia para o Brasil que se tornara um sargento-músico da Banda da Polícia Militar de São Paulo.

Os destaques da temporada 2000 da Sinfônica de São Paulo incluem apresentações de Benjamin Britten - War Requiem, de Haydn - As Estações, a 3a, 4a, e 6a Sinfonias de Mahler, o Concerto para Orquestra de Bartok e as Sinfonias 1a, 4a e 9a de Beethoven. "Somos agora uma Orquestra de categoria internacional", bradou John Neschling, diretor musical da Sinfônica, 53 anos, após ter conduzido um concerto all-Beethoven em abril. "Hoje estamos entre as 50 melhores orquestras do mundo. Mas eu quero mais: devemos nos tornar, dentro de cinco anos, uma das 10 melhores do mundo".